. "A existência dessa persistente desinformação associada a um abaixo-assinado que pretende ajudar a consolidar uma lamentável falta à verdade..."
. "O edifício vais ser reabilitado. O Porto, com o Palácio de Cristal renovado, continuará a dispor dos seus magníficos jardins, mas será, também, bem mais competitivo!"
."(...) implica apenas a remoção de cinco árvores sem qualquer relevo ambiental e a ocupação de uma parte do lago, que assim verá a sua configuração alterada. De resto não há qualquer alteração de excepcional relevo..."
. "Desta forma, o Porto passará a dispor - mesmo a escala Europeia - de um equipamento de elevadísima qualidade para..."
Primeiro ponto, caro remetente, caso não saiba, o Palácio de Cristal já não existe. Este foi demolido em 1951, a pretexto do Campeonato Mundial de Hóquei em Patins, para se construir no mesmo local o Pavilhão dos Desportos, o actual Pavilhão Rosa Mota - um projecto realizado pelo arquitecto Carlos Loreiro, o mesmo que projectou o novo Hospital de Santo António, provavelmente o edifício mais horrível e desajustado que existe na nossa cidade.
Por isso chamemos as coisas pelos nomes correctos. Existem sim, e até quando não sabemos, os Jardins do antigo Palácio de Cristal - idealizados pelo paisagista alemão Emílio David -, nos quais um determinado executivo camarário pretende ver construído um centro de congresso.
Executivo liderado pelo Sr. Rui Rio, e que defende indirectamente que o sossego de um jardim romântico condiz com a pressão de um centro de congressos - em tudo que isto implica de sobrecarga funcional no espaço em causa: impermeabilização do solo, poluição sonora, frequência de cargas e descargas, etc. Algo diga-se, muito estranho, já que muitas dessas mesmas pessoas dizem-se contra a construção de habitação na orla do Parque da Cidade.
Habitação!
E já que falamos do Palácio de Cristal, projecto do arquitecto inglês Thomas Dillen Jones, nunca é de mais relembrar que este antigo edifício inaugurado em Setembro de 1865 - há quase 145 anos - no antigo campo da Torre da Marca, foi construído basicamente com recurso a ferro, vidro e granito, tendo como modelo o Crystal Palace de Londres. É preciso, vincar este facto, o palácio era uma espécie de estufa construída no meio de um jardim, ou não fosse o estilo romântico dominante na época extremamente sensível as questões paisagísticas - algo que se perdeu por completo na actual classe política e burguesia endinheirada do Porto.
Este antigo edifício media 150 metros de comprimento por 72 metros de largura e era dividido em três naves concebidas para acolher a grande Exposição Internacional do Porto. Uso que se foi moldando até se tornar concretamente no principal espaço cultural da cidade.
Este foi, resumidamente, um espaço multifuncional que recebeu inúmeras feiras/exposições e principalmente espectáculos artísticos. Vertente cultural que se perdeu durante muitos anos, ganhando assim especial importância, os jardins.
Ora, com a construção do novo pavilhão a situação não se alterou de todo; ganharam-se é, certo, novas "valências", mas no essencial não existiu uma alteração radical dos usos. Veja-se que o espaço serviu de principal espaço para exposições no período anterior a construção da Exponor, serviu também para a realização da Queima das Fitas e de eventos desportivos e musicais.
Atrevo-me por isso a dizer que a importância de tal espaço na vida dos Portuenses, não advém do edifício em si, nem tão pouco do seu uso, mas sim da qualidade dos jardins, que claramente, neste caso em concreto, são valorizados pelos belos e equilibrados edifícios existentes. Formando um espaço urbano, central, de qualidade ímpar.
Relembro, que a somar ao pavilhão Rosa Mota - edifício classificado pelo IPPAR -, existem duas belas bibliotecas - uma das quais para crianças. Edifícios bem implantados, de proporções correctas e, na minha opinião, com um uso em total harmonia com os jardins.
Segundo ponto; analisando o texto do panfleto, podemos inferir que algo de estranho se passa neste projecto. Ou uma ou outra, ou os senhores na câmara municipal têm outro projecto que não o que saiu para o público, ou então estão a omitir informação. Veja-se o seguinte, na página 2 da memória descritiva do projecto podemos ler que "os grandes objectivos do projecto só serão alcançados com a construção exterior ao perímetro do Pavilhão de uma área de cerca de 3.500 m2 com espaços destinados especialmente a Congressos e afins e restaurante com a respectiva cozinha".
De forma diferente, no panfleto se lê que a nova construção implicará apenas "a ocupação de uma parte do lago, que assim verá a sua configuração alterada. De resto não há qualquer alteração de excepcional relevo..." Três mil e quinhentos metros quadrados de nova construção não têm excepcional relevo?
Essa área implicará obviamente impermeabilização de solo, interrupção/redesenho de percursos, o desaparecimento do actual lago, e é claro uma alteração de atmosfera, já que o novo edifício surgirá com uma forma alongada, no sentido nascente/poente. Situação evitada, por exemplo, no projecto da biblioteca Almeida Garrett.
Terceiro ponto, "Desta forma, o Porto passará a dispor - mesmo a escala Europeia - de um equipamento de elevadísima qualidade para..." empresários. E se renovar o pavilhão é de facto importante - de modo a que este possa receber eventos para a população em geral -, subtrair solo ajardinado de qualidade paisagística, ímpar, e de uso público, para a construção de um programa essencialmente de uso selectivo não me parece correcto.
Um centro de congressos poderá ser feito em muitos outros locais da cidade - como por exemplo na Praça de Lisboa -, sem que para tal se retire área ajardinada de qualidade a uma cidade que por si só já tem uma baixa proporção de "área verde" tratada por habitante.
Para ser franco, sinto-me quase embaraçado por escrever este texto, o que é irritante pois, como arquitecto, e pelo que vejo diariamente por este país e estas nossas cidades, colaboramos cada vez mais - com os nossos projectos - para uma constante degradação dos ambientes, em que vivemos.
E dito isto, quarto ponto; para a próxima vez que encontrar na minha caixa do correio este tipo de publicidade chamarei a polícia. Publicidade a Mango, ao Lidl, ao Minipreço, etc... Ainda tolero. Até porque, estes têm propósitos objectivos e não são pagos pelos contribuintes.
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